A salvação de Jorge

Parados na beira do precipício, os três amigos fecharam os olhos esperando a qualquer momento pela última rajada de tiros.

– Você primeiro, ô Alemão! – disse o carrasco engatilhando a metralhadora.

As medalhas da farda que batiam contra a arma em movimento produziam o som metálico da morte iminente.

– Hora de brincar de paraquedas – disse o outro também com a arma em riste.

O primeiro da fila era Argel, um menino que tinha feito 16 anos no dia anterior. Tremendo de medo e raiva, Argel espiou o vazio do precipício, virou de frente para o carrasco e, em um último suspiro de bravura, gritou:
– Não pulo, policial filho da puta!
Mal terminou o xingamento foi atingido por doze tiros no peito, no quadril e na cabeça. A arma só parou quando os companheiros do carrasco soltaram uma gargalhada estridente.

No instante seguinte, o segundo rapaz, Gabriel de Oliveira Goes, cujo único crime na vida tinha sido acompanhar os amigos no furto da mercearia, obedeceu à ordem do carrasco e pulou para a eternidade sem nem esperar a contagem.

O último rapaz, o Jorge, decidiu que pular ele não ia. Se fosse pra morrer que morresse como um homem, furado de balas como nos filmes da televisão.

Nos instantes que se seguiram, ele se virou para encarar os olhos de seu assassino e foi subitamente tomado por uma ideia dessas sem cabimento.

Aos grunidos, Jorge virou os próprios olhos, deitou no chão e começou a se debater. Levantou os braços e gesticulou frouxamente em direção ao grupo dos carrascos, que hesitavam com as armas em punho.

– Jorgerê assum-cê, sai pra lá capataz! -disse Jorge em uma voz gutural sem ter ideia do que estava dizendo. À essa altura, seu corpo tremia em uma cadência dançante ao som do batique africano que Jorge escutava apenas em sua imaginação.

Do outro lado, a primeira reação dos carrascos foi de total paralisia. Boquiabertos, eles abaixaram as armas enquanto assistiam inertes ao espetáculo teatral de Jorge.

– É um espírito, Deus que me livre, capitão! – disse um dos fardados.

Ao se dar conta que o show estava dando certo, Jorge passou a fazer movimentos ainda mais intensos em uma dança anárquica, espiritual e salvadora.

Os assassinos, que não acreditavam na lei dos homens, eram crentes nas leis dos espíritos. E quando Jorge ousou tocar o homem fardado com a ponta do indicador, todos eles saíram em correria desabalada.

Ao se ver a salvo da morte, Jorge sentou no chão e chorou. Depois correu como nunca na direção contrária aos carrascos amedrontados.

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