A broxada do Rubens

Estávamos no terceiro copo de vodka quando Rubens irrompeu pela sala dizendo:

–       A culpa por eu ter broxado naquele dia é dela, toda dela.

O silêncio ocupou a sala por três longos segundos durante os quais ninguém bebeu. Depois, como não poderia deixar de ser, explodiu a gargalhada coletiva.

–       Quer dizer que você é o broxa e ela é a culpada? Qual é, Rubens! – disse Marcos, um dos nossos amigos de longa data que jura por Deus que nunca passou por uma situação dessas.

–       Existem dois tipos de homens – arrisquei – Os que broxaram e os que vão broxar. Fica tranquilo, Rubens.

–       Que tranquilo nada. A culpa é dela. Não sei vocês, mas eu vejo que a culpa é sempre das mulheres. Claro. É ela que não deu assistência. Sabe como é, as mulheres só sabem cobrar, ficam lá esperando acontecer alguma coisa como se estivesse em um circo. Ela mesmo acha que tudo é mágico, que tudo deve acontecer num passe de mágica. Aí eu tenho vontade de dizer: é que todo mágico, minha filha, tem suas assistentes.

–       E disse?

–       Não disse. Mas o que isso tem a ver?

Tempo para um gole geral.

–       Quem é a felizarda? – perguntei de curiosidade.

–       Aquela louca que eu conheci na festa. Desde lá de dentro tudo começou como um fracasso só. Culpa desse Jean aí.

Jean, enquanto bebia a mistura translúcida de vodka com pitadas de coca, resmungou lá da cozinha.

–       Agora a culpa é minha, é? Eu teria comparecido, te garanto – disse em tom de brincadeira.

–       Vê se cala a boca – o Rubens continuou – O Jean estava com uma feiosa. Aí chegou a amiga dela, que era um espetáculo, o que vai contra nossa teoria das duplas feias.

–       Também, ô teoria furada – disse Marcos – Duplas feias é exceção, não regra. Todo mundo sabe que onde tem uma bonita tem uma feia do lado, e vice-versa.

–       Kátia, Carla, Gisele, Ana, Nanda, Natália, Kelly, Giovana, Amanda e Natalie. Duplas feias. Todas elas – disse Jean.

–       Tá, não importa. O que importa é que eu fiquei com a linda e esqueci de perguntar o nome dela.

–       E depois dos primeiros minutos, se não perguntou o nome, já era. Não pergunta nunca mais – disse Marcos.

E o Rubens começou a palestra:

–       Só sei que foi ela quem deu a ideia de irmos para um lugar mais calmo. Sugeri minha casa, disse que ficava de frente pro mar e ela aceitou. Só que o idiota do Jean sumiu com todo meu dinheiro e me deixou só com vinte reais. Sem carro, eu e ela tivemos que chamar um táxi. No banco de trás, ela começou me beijando e eu só de olho no taxímetro. Na hora que deu vinte zero zero, eu gritei: PARA!, eu moro bem ali.

Mais um gole geral. Agora, só o Rubens dominava a narrativa. Ele continua:

“Eu posso dar a volta para ficar melhor pra vocês”, o taxista falou.

“Não, não precisa, é aqui mesmo. Quanto ficou?” (tava na cara, mas eu tinha que valorizar, né?)

“Vinte reais”, o rapaz disse.

E eu: “Ah, olha aqui. Certinho! Que bom. Muito obrigado, hein!”

“Saímos do carro e ela me perguntou:

– Ué, onde você mora?

– Aqui mesmo – eu respondi. – Um pouquinho mais ali.

Andamos uns 200 metros e eu disse que era um pouquinho ali mais pra frente. Ela desconfiou:

– Você esqueceu o lugar onde mora?

– É logo ali, pode confiar.

Então tentei quebrar o gelo com uma piada que não teve graça. Em vez de rir, ela perguntava: ‘Falta muito?’

Quando chegou, ela não quis nem tomar uma água.

–       Cadê a vista de frente pro mar?

–       Ah, tem que olhar lá na janelinha do banheiro. Mas dá pra ver tudinho.

–       Sério?

–       Sério! É só ir ali, atrás do chuveiro. Quer que eu busque uma cadeira pra você ir lá ver?

“Ela não quis. E então começamos a festejar a noite que chegava ao fim. Ela ficou deitada, como que esperando a tal mágica acontecer. Não estava dando certo.

– Posso apagar a luz? – ela perguntou, tentando disfarçar o constrangimento.

Mas de nada adiantou. Tudo o que ela fazia era ficar dando mordidas cada vez mais fortes no meu pescoço. Tive que falar:

–       Hm, olha, eu acho que não tá ajudando muito.

Diante da cara dela de decepção, eu emendei sem pensar:

–       É que eu bebi pinga!

Aí não dava. O pessoal teve que intervir.

–       Porra, Rubens, que mané! Por que você foi falar uma asneira dessas? – gargalhou Jean do outro lado da mesa.

–       Ela também deve ter pensado isso. Ela só disse um bem longo “Ahhhh” e se virou para dormir.

Rubens continua:

“No dia seguinte, ela se levantou cedo, disse  que precisava ir para o trabalho.”

–       Tá, você quer deixar seu telefone? – quem sabe assim dava para descobrir o nome dela pelo menos.

–       Não precisa – ela respondeu.

–       Então tá.

“E ela foi embora”, concluiu Rubens.

O Jean não se conteve:

–       Olha pelo lado bom, Rubens, pelo menos você entrou na vida dela – disse rindo ainda mais alto.

–       Pior que ela me pediu o dinheiro do ônibus, dizendo que a amiga dela tinha ficado com a bolsa. E ainda teve a cara de pau de me dizer: ‘Espero que minha amiga e seu amigo tenham tido mais sorte’.

–       Ô se tivemos – disse Jean.

–       Revirei a casa procurando algumas moedas. Juntei tudo o que encontrei, coloquei em um saco plástico e dei pra ela. E ela se foi. Nenhum beijo no rosto de despedida. Dá pra acreditar?

O grupo inteiro explodiu em gargalhada que é a forma como nós, homens, escondemos os próprios medos.

Dias depois, descobrirmos que Rubens parou de tomar pinga, aprendeu a perguntar o nome das mulheres com quem sai e hoje faz técnicas de relaxamento antes de qualquer encontro. Não há notícias sobre eventuais broxadas, o que mostra que as novas técnicas têm mostrado resultado para nosso grande amigo.

Isso ou ele parou de confiar na gente para confidenciar as desventuras de amor. Nunca saberemos.

12 de julho de 2014

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