Terra, sangue e lágrimas

A textura marrom da terra árida se confunde com as gotículas de sangue que teimam em escapar dos dedos daquele velho senhor. O resultado é uma mistura bonita, ainda que seca e malcheirosa, entre o vermelho da dor e a escuridão do que há de vir. O trabalho estava apenas começando e já parecia doer na terra e nas mãos do homem. Ainda assim, o rosto do senhor permanece neutro, como se ele não sentisse nada. Ao menos não na superfície. Porque o fardo é maior, e muito mais dolorido, ali dentro, onde o vazio regurgita uma falta de esperança de partir o coração.

O sol emplaca, excruciante, unindo nas mãos do homem, além da terra e do sangue, o suor. A terra se acumula na lateral. De palmo em palmo, o buraco fica fundo suficiente para caber o que tem que caber. Apesar da idade, o senhor não para. O sangue se alastra ainda mais, o suor pinga no chão, mas as mãos não cessam jamais. É um trabalho doloroso. E, como qualquer trabalho doloroso, é melhor que acabe o quanto antes.

De repente, ele para de cavar. De dentro da terra, é possível ver a vida insignificante de centenas de formigas vermelhas correndo de lá pra cá. O senhor se detém na correria dos insetos, deixando-se perder em pensamento, dor e cansaço. No meio do nada, as formigas se pisoteiam mostrando que elas mesmas não exibem nenhum sinal de humanidade quando a casa cai. E como poderiam?

O senhor volta do devaneio e mira com atenção o tamanho do buraco. Ele mesmo poderia deitar e ficar ali. Pra sempre. Considera a ideia de ser devorado pelas formigas vermelhas, de se afogar na terra, de ver o último raio de sol distorcido sob os pequenos grãos que terminariam por ofuscar-lhe toda a visão. A última visão. A imagem lhe parece alentadora. Ele então sorri. Mas logo desfaz a graça por considerar que uma decisão como essa seria covarde demais para seu temperamento. E covardia não é algo que se adquire pela vida. Ou se tem ou não se tem.

E ele não tinha. De volta ao trabalho que o levou ali, ele se ajoelha. Faz o sinal da cruz. E fica um minuto em silêncio. O minuto vira dois, cinco, sete, trinta. Uma hora depois, ele levanta meio bamba. O joelho não é mais o mesmo. O senhor não é mais o mesmo. Mas ainda é forte. Forte suficiente para levar sozinho o corpo inerte perto dali, ajeitá-lo com carinho sob o estofamento de terra e dar um abraço final no cadáver ainda insepulto.

O cadáver começa a ser devorado pelas formigas vermelhas quando o velho senhor se ergue novamente. As mãos de sangue, terra e suor começam o trabalho de volta. E, pouco a pouco, a terra volta a seu lugar. O corpo volta ao seu lugar.

A última mão de terra solta uma poeira sobrecomum que voa indomável pelo ar. O senhor olha a poeira com a devoção de um fiel. O sol está mais baixo, o corpo foi sepultado, a terra está mais lisa, mas o sangue, o sangue continua forte, correndo pelos dedos, voando pelas veias, pulsando na têmpora sobressalente do velho senhor. Agora que o ritual acabou, ele joga a pá longe, com a raiva dos inocentes indignados. Então, fecha os olhos e, sem querer nem ver o mundo a seu redor, desata a chorar.

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