A árvore da frente da minha casa

A árvore da frente da minha casa tinha dez galhos, 86 folhas verdes, 13 metros de comprimento, cinco variedades de flores e três cachos grandes de uma frutinha verde e arredondada de gosto azedo que até hoje eu nem sei como se chama.

A árvore da frente da minha casa sobreviveu a quatro gerações, viu os filhos da família nascerem, a casa encher, se esvaziar e encher de novo. Tínhamos tanto carinho por aquela árvore que era como se ela fosse um parente. Tanto que a batizamos de Giordiana, mistura de Giorgio, o patriarca da família que plantou a primeira muda, e a esposa dele, a Diana, que tomava conta da árvore como se fosse uma filha.

Por tudo isso, no dia em que cortaram a Giordiana, eu tive que ser levado ao hospital. Assim, do nada, eu tive um mal súbito quase fulminante depois de ver os galhos da árvore no chão. Todos mortos. Eram os mesmos galhos que haviam abrigado tantas casas na árvore de nossa infância, sem contar nos milhares de redes e balanços durante os anos de nossa juventude.

Cada corte na seiva da planta era como uma punhalada na alma. Eu nunca entendi porque deveriam vender a casa, único patrimônio da família, para aquilo que os jornalistas estavam chamando de mega empreendimento.

Os jornais diziam que ia ser uma coisa boa: levar o nome da cidade para o mundo, financiar eventos esportivos que trariam milhões (e talvez bilhões), e fazer o progresso chegar por essas bandas. Mas eu nunca acreditei nos jornais. Eles mudam de opinião como quem troca de cueca. Meu bisavô, o bisa Juliarde, sempre me mostrava uma cópia de uma edição antiga em que um jornal desses gigante exaltava as estratégias de expansão da Alemanha nazista. Com linhas tortas, meu bisavô dizia, eles conseguem defender até o Hitler. O Hitler!

Mas não eram só os jornais que defendiam a empreitada por sobre a residência da família. O governo também. Mas aí até que não conta muito porque governos fazem isso mesmo em nome da governabilidade, sacanabilidade e dinheirama no bolso.

O que me espantava de verdade eram as pessoas mesmo, gente como eu e você, a favor de despejar famílias. Começou com a dona Joaquina, que foi a primeira a vender a casa. Vendeu e levou um bolão. Ela pegou o dinheiro pra investir numa rede de salão de belezas, mas aí o Junqueirinha, esposo dela, gastou tudo e mais um pouco no jogo do bicho. Junqueirinha era viciado em apostas. Certa vez, apostou o próprio cachorro num Palmeiras e Corinthians. Era uma época em que eu apostava também, mas não tanto quanto os homens da minha rua. No fim, um rapaz de cabelo oxigenado levou o animalzinho. Mas acabou devolvendo quando o cão teve as primeiras crises de abstinência do vinho que Junqueirinha dava todas as noites para acompanhar os pedaços de bife canino passado em margarina que o animal costumava desfrutar diariamente.

Depois veio a família do Jordão, que já queria vender a propriedade mas não achava ninguém interessado. Acabou que o megaempreendimento lhe salvou a pele, porque o homem tinha se envolvido com a agiotagem e, diziam à boca miúda, já estava com os dias contados.

É, nesse ponto, o tal empreendimento havia feito uma coisa boa. Se bem que só um jumento feito o Jordão pai para envolver daquele jeito com a agiotagem dos gângsteres.

Daí vieram falar com a nossa família que queriam comprar a casa dos meus antepassados e que pagavam muito bem. Os primeiros engravatados foram embora depois de um copo de chá e alguns biscoitos. Os próximos, eu tive que enchotar foi com a vassoura mesmo.

Depois de muita insistência, eles foram ao tribunal para “fazer Justiça”. Se você quer saber minha opinião, acho que deviam mudar o nome para Acordos, Esquemas ou quem sabe Teatro, porque não vejo justiça nenhuma em demolir casas de outras famílias.

Nosso advogado se chamava Belquidías. O Belquidías, filho da dona Sônia, tinha ido estudar no estrangeiro e mal sabia falar o português. Era um tanto de palavras data venia e ad hocs que ninguém entendia nada. Numa hora, o coitado achou que bastava colocar “um” ou “am” no final da frase pra falar direito: infinitum, perpetuam, memoriam, e assim por diante.

Não sei se foi por falta dos dotes linguísticos de Belquidías, mas perdemos a causa. O Belquíades enrolou um pouco no tribunal, disse que ia recorrer. Então conseguimos ficar na casa quando as primeiras obras começaram.

Logo depois disso, uma máquina de ferro que fazia um barulho terrível avançou contra a Giordiana. Avançou e destruiu. Eu nem consegui ver o que aconteceu. Quando acordei, só vi o branco do hospital e a voz da minha filha me dizendo que era melhor aceitar o acordo e vender a casa. Ela disse que não teria como evitar as obras de qualquer jeito. Achei que ela tava certa, mas não conseguia pensar em nada a não ser na Giordiana no chão. Para que destruir uma árvore inofensiva?

Naquela noite, delirei de febre. Sonhei com florestas ancestrais e plantas com raízes do tamanho de grandes cidades. As raízes saíam da terra e avançavam contra prédios, carros e estádios de futebol. Eram as árvores se vingando dos homens.

Acordei suado e sem fôlego. Demorei alguns segundos  para concluir que tudo aquilo era uma bobagem, as árvores são humanas demais para tomar uma atitude daquelas.

Tomei remédio, fiquei melhor e, depois de assinar a venda da casa com a caneta tremendo nas mãos, voltei ao cenário sonhado e criado por meus antepassados. Tudo era destruidor: obras, máquinas, homens de capacete e barulho. Muito barulho.

Ouvi um operário perguntar pro colega:
– O que tinha aqui nessa região?
O outro respondeu:
– Nada, só umas casas velhas.

Então eu me abaixei no canteiro onde era antigamente o espaço da Giordiana e só dela. Os galhos ainda estavam lá, pisoteados e com marcas de pneu. Chorei pelas memórias perdidas. Estava quase indo embora quando vi de relance alguma coisa em meio à poeira barulhenta das obras.

Era ela! Giordiana! Uma parte das raízes ainda estavam ali. Vivas. Era como se a árvore ancestral tivesse se agarrado à terra.

Na mesma hora telefonei pro Belquíades, que tinha sido jardineiro no exterior durante alguns anos para pagar os estudos. Ele de terno e gravata – e eu de chinelo de dedo -, trabalhamos para salvar o que restava da Giordiana. A alma dela estava a salvo.

Levei o que sobrou da árvore para minha casa nova. Giordiana precisou de um tratamente extra, mas a boa notícia é que está bem, crescendo em um jardim pequeno, longe da destruição dos homens, perto do amor dos homens.

Num mundo sem razão, as plantas são os seres mais belos que existem. Mas tem gente que não percebe isso.

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