Monstros cubistas

Monstros cubistas tocam a campainha. Não quero abrir. Não sei o que eles querem, mas a intuição alerta do perigo. É a imprevisibilidade que os faz tão perigosos. O fato é que eles batem na minha porta, me buscam. Querem alguma coisa que eu tenho escondido. A gente só esconde o que pra gente vale alguma coisa, não é? E também porque temos medo de perder.

Só que o problema é mesmo outro. Mesmo com a porta fechada eles conseguem entrar. São de outra natureza, os monstros. Feitos de antimatéria. E então me dou conta. Eles já estão dentro. Não tocam a campainha coisa nenhuma. A campainha é só um mecanismo de defesa que eu mesmo aciono para ativar o sinal interno do luta ou corre. É melhor correr. Quando ver um agente, corra como nunca, fuja como sempre. Mas correr não serve mais. E ninguém fala disso com sinceridade. É que eles correm com o mesmo impulso, os monstros cubistas. Porque eles se alimentam do meu esforço.

Lutar então. Mas é uma luta inglória. Ouroboros. A cada vitória eu caio no campo de batalha. A cada recuperação, os monstros também ficam mais fortes. Demoro muito pra pensar a saída. Até que descubro que não tem saída por meio do pensamento. A solução tem que vir de outro campo.

No momento em que as criaturas já entraram e me demoliram inteiro, no momento em que elas quase chegam ao centro de tudo, entendo o que não se coloca em palavras. Tive que aprender a olhar os monstros cubistas nos olhos. E, ali, a ver o abismo da alma. É uma espécie de poço sem fundo que conecta submares e além-universo. A terra não acaba no magma. A terra não tem fim.

Olho e aceito a verdade terrível. Ouroboros. Os monstros cubistas voltam de onde vieram. Mas dessa vez sem fazer a cortesia de destocar a campainha que ficou tocando todo esse tempo em alerta. Essa é a fraqueza deles: quando se olha bem dentro da natureza e alguém se reconhece e se representa e se expressa, os monstros cubistas perdem a força. E também perdem o interesse. Eles já não assustam tanto quanto antes. E aí a gente vê que, de um modo ou de outro, somos todos monstros cubistas a tocar a campainha de alguém.

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