A gente sabia

Agora é madrugada e é fato: a gente sabia. A gente sabia naqueles anos, naqueles muitos anos que já se foram e estão praticamente esquecidos… A gente sabia de coisas mais além do que as pessoas costumam saber. Ou deixar-se saber. Acho que existe um motivo importante pra elas não quererem saber. Ou fingirem que não sabem. A autoconsciência é o que, afinal? Uma bênção ou uma maldição?

A gente sabia naquele dia, naquele corredor branco e espaçado e claro e sem ninguém. E quando apareceu aquele menino de cabelos ruivos e olhou de volta pra gente, ele sabia que a gente sabia. E num lapso urgente de brilho ele se identificou e deixou-se identificar. Porque agora ele sabia que a gente sabia o que ele sabia mas que não tinha até então ninguém com quem dividir.

Ele provavelmente havia guardado aquilo por anos porque não tinha alternativa. E talvez isso explicasse alguma coisa do comportamento errático que ele fazia questão de manter. Não deve ser fácil não poder falar de um segredo que você sabe, mas que não sabe se o resto das pessoas sabe.

Nos segundos logo depois daquele olhar reluzente, ele sentou do meu lado e resolveu juntar toda sua sabedoria num conselho de uma única frase:
— É assim mesmo.

E então:
— Vai pra casa, cara. Tenta relaxar. É assim mesmo – ele repetiu.

Acho que ele sabia porque possuía, talvez, uma grande sensibilidade melancólica que nos destrói no presente mas que, de vez em quando, nos permite abaixar bastante o nível da realidade para ver as coisas que são mais reais ainda. As coisas reais-reais, a realidade abaixo – ou acima – da realidade, alguma coisa de mystique.

O fato é que hoje, anos e anos e anos, numa madrugada banal, eu sei, eu finalmente sei que sabia. Como aquele menino ruivo tentou me alertar. Como viajantes, de alguma forma tripulantes de um futuro comum e qualquer, a gente sabia que aquilo, aquele tempo, era o melhor que podia ter e que a partir de então quase tudo seria só o resto fragmentado das estrelas que estavam, então, em expansão. E que como todos os astros, estrelas, planetas, e todo o resto, um dia vai tudo ser apenas o resto do resto. E o resto é silêncio.

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