Conversas sinceras depois

— Você já mentiu pra alguém?
— Todo mundo já mentiu pra alguém.
— Aqui. Assim. Depois do sexo…
— Hmmm, não sei.
— Quando a gente fica assim. Meio dormindo, meio acordada. Meio voando. Eu acho que só alguém bem filho da puta podia mentir num momento desses, você não acha?
— As pessoas mentem o tempo todo…
— Se eu não mentir pra você, você promete não mentir pra mim?
— E como você vai saber se é mentira? A gente nem se conhece direito… Se você contar uma mentira agora ou se eu contar uma mentira agora não tem nunca como saber…
— Sempre dá pra saber. Tá vendo a luzinha da janela?
— A lua?
— É uma heresia contar mentira na frente de uma luz tão bonita dessas. Ela revela tudo, a lua.
— Tá bonita mesmo.
— É também pela energia. A energia que essa coisa de enganação tem faz toda mentira se encher no ar e ficar assim vagando sem destino meio querendo ser descoberta. Tem uma tensão, uma necessidade de explicação que parte do chão, sobe e explode no coração.
— Meu Deus, Cora Coralina.
— É o que eu acho.
— Eu nunca pensei sobre tudo isso.
— Não liga, eu só fico assim nessas situações.
— Eu acho que você é uma poetisa e não fala pra ninguém.
— Poeta.
— O quê?
— Poeta. Poetisa é feio.
— Tá. Poeta então.
— Mas me fala. Me fala alguma coisa, alguma coisa sua.
— Bom… Você já sabe o meu nome, onde eu morei, o que eu faço…
— Não me importa muito o que você faz, onde você esteve e nem o seu nome. Eu nem me lembro do seu nome.
— Ih, acabou a poesia…
— Me importa o que você é. De verdade e sem filtros. Sem mediação de nada. Só aqui. Pra mim. Na luz da lua. Só agora. Me fala?
— Hmm, eu sou uma rocha…
— Uma rocha?
— Um pedacinho de rocha. Nem uma rocha inteira eu sou. Eu sou um pedaço de rocha em busca da rocha de onde eu vim.
— Misterioso.
— Talvez…
— Um homem de História então?
— Todo mundo é de História, não é? Ou deveria ser.
— Nem todo mundo. O que você valoriza é de onde você veio então?
— Mais ou menos. É que eu acho que de onde a gente vem conta muito pra saber pra onde a gente vai.
— Não, eu não vejo assim. Pra mim o pra onde a gente vai é muito mais importante do que de onde a gente veio. Sabe por quê? Porque de onde a gente veio é uma coisa que não dá pra mudar.
— E pra onde a gente vai dá?
— Claro que dá.
— Não sei…
— Peraí, se você é de História você não acredita em destino, acredita?
— Não.
— Eu também não.
— Mas eu acredito que ninguém começa do nada. A gente começa de onde a gente tem que começar. Por algum motivo, mesmo que a gente nunca descubra qual.
— A sua rocha.
— A minha rocha.
— Você tá perto de achar?
— Não acho que vou conseguir saber essa resposta nunca.
— Tudo bem. A gente nunca sabe.
— A gente nunca sabe.
— Eu já matei uma pessoa.
— É sério?
— Foi sem querer… Eu não falo muito sobre isso com os outros, mas comigo mesma eu falo o tempo todo. Eu nunca consigo abaixar essa voz que só eu ouço.
— E o que ela diz?
— Ela fica sussurrando coisas meio cruéis. E tem o tom de um sussurro meio agudo, um pouco ácido. É uma voz que não é minha, mas tá dentro de mim. E considerando que ninguém colocou ela aqui, só dá pra concluir que ela é eu mesma, ela é parte de mim, apesar de não ser muito. Entende?
— Mas você não tem nenhum controle sobre ela?
— Eu consigo fazer ela se calar durante o dia. Porque eu trabalho muito. E eu quase nunca tenho folga. Mas de noite, bem antes de dormir, ela vem falar as mesmas coisas de sempre. Às vezes eu acho que é a voz dele, do cara, algum tipo de fantasma.
— Quem era ele? Você quer contar?
— Um cara qualquer. Desses que andam na rua quando ninguém mais está. Foi um assalto. Eu entreguei tudo o que ele pediu. Mas ele quis mais. Eles sempre querem mais quando veem uma mulher sozinha na rua e mais ninguém por perto.
— Foi legítima defesa então…
— Quando ele me atacou eu não sei o que deu em mim. Naquela hora eu não ligava de morrer. A arma caiu no chão. Ele se abaixou num canto. E eu fui lá, peguei a arma e atirei. Sem pensar. Não sei se isso foi legítima defesa. Só sei que eu matei uma pessoa.
— Você não devia se culpar.
— Matar alguém, mesmo que alguém ruim, é uma daquelas coisas que a gente carrega pra sempre. É como uma ferida na alma, um pedaço nosso que vai embora, um peso misturado com vazio. E tem as vozes. Elas trazem a cena de volta. Me falam que eu nunca vou poder dividir amor porque eu tenho ódio em mim.
— Elas estão falando com você agora?
— Não. Porque eu tô falando com você.
— Se elas vierem durante a noite, você pode me chamar. A gente conversa pra mandar elas embora.
— Será que um dia eu vou conseguir fazer elas ficarem quietas de uma vez?
— Eu acho que sim.
— Eu não acredito em destino. Mas às vezes eu penso nas coisas que aconteceram naquele dia. Eu peguei o último trem por acaso. Eu nunca fico até o último trem. Mas naquele dia eu resolvi ir no cinema antes de ir pra casa. Se eu não tivesse feito isso, provavelmente… Será que a história dele estava marcada para ter um ponto final bem ali, bem nas minhas mãos?
— Não adianta pensar assim agora, né?
— É. Eu acho que não.
— Obrigado por dividir a sua história comigo. Você não é uma pessoa com ódio. Dá pra ver que você tem muito amor aí dentro.
— Obrigada por não sair correndo.
— Às ordens…
— Daqui a pouco o sol nasce. Vamos ficar acordados até ele chegar?
— Se você ficar eu fico.
— Se você ficar eu fico também.

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