Kintsugi

A tigela de que ela mais gostava se espatifou no chão. Era uma bowl amarela por fora, roxa por dentro. Mais que um lugar onde misturar arroz, feijão, salada e frango picado com molho teriyaki, aquilo era um objeto de recordação. Aquela bowl representava o passar do mundo pelas histórias de lavagens e secagens da vida. E também pelas discussões e momentos íntimos que eles viviam na cozinha, o lugar das confidências dos casais que se encontram tarde da noite sempre depois do trabalho.

Tudo bem que nessa altura já não havia mais momentos, revelações e nem mais o casal. Mas a bowl, o objeto, ela levou porque de alguma forma lhe fazia bem.

Então quando a cerâmica se estourou no chão, um bom número de memórias lhe surgiram à flor da pele. É na hora do fim que se valoriza o começo. Depois do choque, ela juntou os cacos, colocou tudo em cima da mesa protegida pelo jornal velho e deixou pra arrumar no amanhã.

Apesar de tudo, era só uma bowl. Ficou de se esquecer do acontecido durante as horas de sono. Mas só num nível consciente porque ninguém se esquece assim de um objeto histórico – mesmo que a história em questão não seja a da Antiguidade, mas a pessoal de uma vida sem significância para os livros, mas cheia de significado para quem a vive.

Se deu conta da verdade quando juntou um jornal no outro para jogar tudo fora e não conseguiu. Era besta, ela sabia, mas a maldita bowl tinha mais importância do que ela queria assumir.

Ergueu os cacos com as mãos como quem observa os fragmentos de uma obra de arte. E, passando os dedos nas pontas, viu o sangue escapar em gotas.
E agora eram três as cores à mostra: o roxo, o amarelo e o vermelho. Foi quando a mistura lhe deu o clique. Essas coisas não se jogam assim no lixo. Mesmo que sejam cacos.

Foi até a lojinha da esquina, que não ficava bem na esquina, e comprou o que precisava.
Ligou pro trabalho – ligou, não, mandou whats – e passou a tarde de sol a trabalhar na empreitada.

Terminou já de noitinha. A bowl quebrada já não existia mais. Em seu lugar, uma nova bowl, unida em todos seus fragmentos, se exibia com filetes coloridos que pareciam estrelas emanando luz. Não era apenas – como para sempre seria – uma bowl quebrada. Era agora uma bowl única, detentora da própria história de morte e renascimento, finitude e recomeço.

Quando a cola e a tinta secaram, ela lavou a bowl na pia – a primeira de muitas depois dos cacos – e foi preparando o jantar como sempre do jeito que gostava. Era a mesma bowl de sempre, mas diferente.

Na hora de comer, ela abriu a janela e olhou para o céu, mas não viu nada. Era dia de lua nova.

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