Don

O senhor caminha assim. De um lado, desastrado, vai pra sala do condomínio que é a sua sala de estar.

Deixa o prédio pra fumar. É um cigarro por hora no dia. Quer parar, mas não tenta. E nem quer tentar. Melhor morrer de apatia.

Volta devagar, passo na imensidão. Corredor, tapete, carpete. Sem pensar, bate a fome, vai buscar o pão, o frango, a vinagrete e o arroz. Todo dia é dia da comida preferida do Don.

Volta apressado, come tudinho. E fica esperando estático, apreensivo, bisbilhotando o movimento que passa lá fora. Olha o mundo, olha o mundo, olha o mundo. Até alguém aparecer na janela da cozinha. É a primeira das duas certezas de Don. Sempre vai aparecer alguém.

O cachorro, o gato, a vizinha. O modelo, o vidraceiro, o homem que tira leite da vaca, a inquilina, a empregada, o zelador. É bom dia, boa tarde e sim, senhor.

Chega a visita, o rapaz de ouro, a paixão do Don. Entra mansinho, deita na cama, dorme de tarde. Don encontra o carinho na barba alheia. E, depois da soneca, volta pra caminhada na rua.

E sonha, porque o céu não tem grade, nem parede nem janela. O céu tem amor, agora, sem espera, sem fobia. Amor com toda a alegria de quem ama igual, diferente, separado, o mesmo ou os dois. A segunda certeza na vida, Don tem. Amor não tem pois. Muito menos depois.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s