A família

Vejo muitos casais com seus filhos pequenos, a família feliz, crianças inquietas enquanto os pais dedicam todo o tempo para os pequenos: as brincadeiras, as broncas, a falta de paciência com tanta energia infantil ou a alegria coruja por qualquer traquinagem que as crianças façam ou falem.

Por algum desses motivos, ou por todos eles, não consegui tirar os olhos de uma família que se preparava para viajar. No saguão do aeroporto, admirei, talvez sendo um pouco invasivo, aquela linda família com dois filhos muito espertos de menos de seis anos.

Entre as brincadeiras dos meninos, correndo dali pra cá, me detenho nos pais para tentar imaginar como chegaram até ali, um caminho provavelmente comum (já que muitíssimas pessoas na Terra seguem certo script na hora de constituir família), mas longe de ser banal.

Olho até conseguir vislumbrar um resquício da juventude, quando possivelmente viajavam sozinhos, com orçamentos mais modestos e a certeza garantida de aproveitar toda e qualquer viagem. Um tempo no qual pouco importavam os perrenhes. Tudo era aventura.

Aí vejo, com um pouco de tristeza (minha, não deles), o tempo que se esvai feito areia. Escorregadio, passa rápido, voando, deixando lastros visíveis nas marcas do rosto, na elasticidade da pele, no ligeiro cansaço dos olhos. Nada muito acentuado a ponto de deixar irreconhecíveis os traços juvenis daquele casal. Mas ainda assim… O tempo é implacável.

Então, no auge da minha arrogância de tentar interpretar a vida dos outros, algo acontece: a mãe sorri para o pai, que sorri de volta. E vejo na interação deles o sorriso de anos atrás, brilhante, juvenil, um sinal que fala muito sem usar palavra, um momento singelo, quase imperceptível, em que ela agradece por tudo, pela vida, pelos filhos, pela família, pelas aventuras e até pelas brigas da madrugada quando deviam decidir se iam dormir num camping, num albergue ou no carro mesmo.

Ele, talvez sem se dar conta do que aquele sorriso significa (ou talvez dando-se conta daquilo a cada dia de sua vida), sorri de volta.

São outros tempos, outras alegrias, valores, missões e aventuras. Possivelmente mais difíceis, mas não menos felizes. Mais complexas, é verdade, e talvez por isso mesmo, muito mais recompensadoras.

23 de julho de 2013

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