O Calhorda da Rua Treze

Se achava o bamba. Cordão de ouro à prestação no pescoço, camisa aberta quase até o umbigo, andar ébrio de dono da rua e um orgulho do tamanho do mundo junto com sua barba trinta dias.
Tinha emprego fixo e sete ou cinco namoradas. Na roda com os amigos, bebia o drinque da galera enquanto detalhava todas as barbaridades que fazia e que não fazia com as mulheres em seu ninho de amor – uma quitinete infiltrada com água do cano do vizinho que ficava na planície do morro, na Rua Treze, a rua onde não faltava mato, rato e barato.
Entre as mulheres, era o alfa. E elas achavam o máximo que ele conversasse abertamente sobre sexo. Diziam que era mente aberta.
Tinham razão. Com a quantidade de drogas por mililitro de sangue, a mente não ficava só aberta. Ficava escancarada. Eram substâncias pesadas, drogas de cavalo à coisa fina. De todas as cores, tipo, serviços e tamanhos. Consumia mais do que podia e, é claro, ficava todo mês nas mãos dos traficantes, os chapas, homens de negócios que esperavam pacientemente o começo do mês pra receber a agiotagem.
Porque apesar de malandro, ele não era otário. Tinha trabalho respeitável. Sem camisa aberta ou pingente no pescoço. Trabalho sério, empresa resposa. Onde sempre rolava compaixão na hora da distribuição dos elementos para os colegas. Afinal, brotheragem é brotheragem.
Ficou nessa quase quatro anos. Depois de conhecer a Gisiela, loira oxigênio, tatoo de lagartixa, sorriso metálico, ele foi apresentado ao incrível mundo do tiro.
Foi a garota interrompida que mostrou pra ele como era cool atirar com uma arma.
– Tá sentindo? – ela dizia, arma na mão, dedo no gatilho, a cabeça cheia de fumaça – Esse é o poder, a pressão do criador. Um bum e bau!
Ele experimentou. Começou atirando em foto de zumbi. Depois veio Hitler, George Bush, Lula, Che Guevara, Lênin, Fidel Castro. Logo perdeu a veia política e passou a atirar no Senna, Malcom X, Madre Tereza, Mahatma Ghandi. Para ele, eram fotos num mural. O cara era um demônio.
Um dia, Gisiela vazou. Mas ele continuou com a vida boa. Atirando mais do que nunca. “O poder, o poder”, murmurava. Era todo dia clube de tiro, festa, droga e mulherada.
Aí, muito tempo depois, uma mulher de respeito descobriu o que o bacana falava dela por aí: posições, safadezas e bacanais.
– Mente aberta é o peru! Você é um idiota, calhorda, imbecil!
Isso e mais uma centelhada de palavrões classe média. E como não era menina de invulnerabilidades, decidiu que era nunca mais e ponto.
Prestes a ir embora pra sempre, ela lançou o último dos impropérios, aquele que teria o efeito de uma bigorna na cabeça do pobre diabo.
Antes de bater a porta, ela olhou para uma foto dele pendurada na estante, olhou pro cara e disse:
– Não tem nada mais feio do que um homem segurando uma arma.
Era o que faltava. Mexeu direto no ponto fraco do rapaz, que era sua vaidade. Para ele, a partir daquele momento era hora de mudar de vida.
24 de abril de 2013

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