Conversas com rosa

No meio da conversa, eu automaticamente me detenho sobre as marcas tortuosas no rosto da velha senhora. Desde quando estariam ali? Certamente não são marcas novas e eu já não consigo imaginá-la sem essas marcas. Quando eu a conheci, ela já tinha esses traços cuidadosamente tortos acompanhando uma linha imaginária criada sabe-se lá por quantos movimentos repetidos dos músculos da face. Gosto de pensar que são marcas da vida, marcas que contam uma história. A história dela.

Voltando à conversa, tento fazer perguntas abertas do tipo “…e sempre foi assim?” Quero com isso fazê-la falar. Porque, durante quase cem anos, ela pouco falou. Filha de um mundo que não existe mais, desde sempre ela foi ensinada a ser uma boa esposa, mãe exemplar, dona de casa complacente e uma devota fervorosa da fé católica.

“Desde quando a senhora tem essa correntinha?” Tento acionar o gatilho das memórias imaginando como (e quando) as lembranças vão se processar. Sem disfarçar minha ansiedade, desejo embarcar logo com ela no oceano das memórias desorganizadas de uma pessoa que vive mais de 80 anos. Eu mesmo, não consigo dimensionar quanto tempo tanto tempo é. Miro os olhos bem azuis imaginando as coisas que eles já viram, as transformações que testemunharam, as tristezas pelas quais choraram e também os momentos de alegria nos quais a pupila negra cresceu a ponto de deixar os olhos azuis bem mais azuis.

Então, de repente, os olhos se esmaecem. Estão cansados e não querem mais contar é história nenhuma. Meu esforço de pouco adianta. Ela não cai na armadilha. Ela é pragmática, vive do que vive, do momento presente e é disso que ela quer falar. Para ela, o passado – aquele passado que eu buscava – está em um baú de folhas soltas e amareladas que ela mantém bem guardado, quase esquecido, em baixo de uma escada imaginária. Ao mesmo tempo, o futuro não a interessa porque é um tempo de incertezas que ela honestamente não está muito preocupada sequer em alcançar.

E talvez nunca esteve, já que, mesmo aposentada e pensando na vida (e de vez em quando na morte), ela não tem tempo é de pensar em nada mais.

Para a senhora que conversa comigo na cozinha (sempre na cozinha desde que eu a conheço), apenas uma coisa interessa: “Você quer mais café?”

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